Alô.

Onde paramos, mesmo?

Ah, é… em Batman v Superman…

Se você ainda não leu a parte I, eu recomendo fortemente! Ela está aqui: PARTE 1

Mudanças de Planos

Ainda em 2016, foi lançado o que pode ser considerado o pior filme da DC: Esquadrão Suicida, que escrito e dirigido por David Ayer, precisou passar por refilmagens para inserção de humor após a reprovação do público ao tom sombrio de Batman v Superman. O que se sabe, é que o corte inicial seria “pesado demais” na opinião da Warner.

Os planos originais de Snyder, que como vocês devem se lembrar havia sido nomeado responsável pela construção do Universo DC nos cinemas, traziam Steppenwolf como vilão central da película, dando origem ao arco das Caixas Maternas, base de todo o conflito do Snyderverse. Com argumento e conceito barrados, o filme simplesmente derreteu após uma tentativa ridícula de emular o humor peculiar que James Gunn trouxe à Marvel com Guardiões da Galáxia (2014).

Por ironia do destino, atualmente James Gunn trabalha na pós-produção de um novo filme do Esquadrão Suicida. Contratado em 2018 pela DC após uma demissão da Marvel por conta de tweets de extremo mau gosto publicados cinco anos antes, o diretor parece ter conseguido liberdade criativa.

Com os planos originais para dois filmes da Liga cancelados, muitas mudanças foram necessárias.

Liga da Justiça (2017)

Duração: 120 Minutos

Diretor: Joss Whedon

Roteiro: Joss Whedon

Orçamento: US$ 300 Milhões

Bilheteria: US$ 660 Milhões

Um mês após a estreia desastrosa de Batman v Superman, iniciaram-se as filmagens do agora único filme da Liga da Justiça. A mando da Warner, Snyder trabalhou exaustivamente em alterações no roteiro sob supervisão de Geoff Johns e Jon Berg. Esquadrão Suicida, que já havia finalizado o trabalhos de set, precisou reunir o elenco para captar novas cenas afim de realizar as mudanças encomendadas.

Com sua visão cada vez mais distorcida e impedida de ser realizada, Snyder alcançou o ápice de seu esgotamento quando foi atingido por uma tragédia familiar: sua filha Autumn, de 20 anos, cometera suicídio. Na época, foi dito que o diretor se afastou por conta própria da produção, mas anos mais tarde, veio a público que Zack fora demitido.

Usando a trágica morte da jovem como bode expiatório, a Warner contratou Joss Whedon (Vingadores, Vingadores 2) para finalizar o filme. Segudo Zack Snyder, ele se reuniu uma única vez com o novo diretor, onde discutiram apenas elementos de segunda unidade.

Agora com controle total da produção, Whedon reescreveu 80% do roteiro. Suas mudanças removiam elementos de vital importância, como o verdadeiro vilão central Darkseid e a apresentação da trágica história do Cyborg, transformando o personagem de Ray Fisher em um monte de nada. Além disso, a alteração de diversos diálogos e cenas apagavam a importância e imponência de personagens como Aquaman e Mulher-Maravilha. Um humor tosco digno de besteirol se fez presente, como na cena onde o Flash cai de cara nos seios da Mulher-Maravilha durante uma batalha. Gal Gadot, intérprete da Amazona, se recusou a filmar a cena, e a solução encontrada por Whedon foi rodá-la com a dublê da atriz e inseri-la em seu corte final sem que Gadot soubesse.

Você tinha o mouse quando jogava Mario Paint no SNES?

Um tom otimista sem motivo e deslocado das obras originais foi inserido através de refilmagens e adição de cores vivas e luminosidade não vistas até então. Henry Cavill, que na época filmava Missão Impossível 6 e não podia tirar o bigode por questões contratuais, adquiriu um aspecto de boquinha de sacola ao ter seu rosto refeito em CGI na pós-produção das cenas extras. As novas tomadas incluiam diálogos novos e mais leves, com sorrisos fora de lugar e uma exploração infundada do corpo de Gal Gadot que chegavam a closes de seu traseiro em cenas de conversa. Chris Terrio, roteirista, chama o tratamento dado ao seu trabalho de vandalismo e chegou a pedir, na época, que seu nome fosse retirado dos créditos.

O produto final, ainda mais afobado que seu antecessor apresentou um material sem alma. A duração máxima travada em duas horas pela Warner prejudicou, e muito, o desenvolvimento dos personagens que deveriam ter sido introduzidos tanto no lado dos heróis, quanto dos vilões. O “Josstice” enterrava de vez todo o conceito criado por Snyder nos últimos anos. O vindouro filme solo do Batman com Ben Affleck foi cancelado, o do Flash, adiado por tempo indeterminado, e a Mulher-Maravilha entregue à diretora Patty Jankins (Monster), que seguiu a cartilha colorida do amor, entregando uma Gal Gadot sorridente e sexy que posava para a câmera em meio a um conflito leve. O Aquaman de Jason Momoa, por sua vez, acabou nas mãos de James Wan (Jogos Mortais, Invocação do Mal) e ganhou um filme que conseguiu atender as expectativas do estúdio e ainda respeitar, dentro do possível, a visão de Snyder, tido por muitos até hoje como a melhor realização da DC na tela grande.

Liga da Justiça de Zack Snyder (2021)

Duração: 242 Minutos

Diretor: Zack Snyder

Roteiro: Chris Terrio

Orçamento: US$ 70 Milhões (liberados para pós-produção)

Após o lançamento da versão de 2017, o movimento #ReleaseTheSnyderCut tomou as redes sociais. Somente nas primeiras horas, mais de 180 mil fãs que sequer sabiam da real existência de tal versão assinaram a petição pela versão do filme concebida pelo diretor original.

Aos poucos, o Snyder Cut se tornou uma espécie de ser mitológico na internet, e boatos de sua veracidade começaram a ganhar força quando não só o próprio Zack Snyder, mas também atores como Jason Momoa, Ben Affleck, Ciarán Hinds(Steppenwolf), Gal Gadot e Ray Fisher se manifestaram. Aos poucos, Christopher Nolan (diretor da trilogia Batman estrelada por Christian Bale), Rob Leifield (criador do Deadpool) e Robert Kirman (criador de The Walking Dead) somaram suas vozes ao coro.

A campanha alcançou números incríveis, e os fãs se organizaram até mesmo para fazer um avião sobrevoar a Comic-Con 2019 carregando uma faixa com a hashtag. Além disso, várias ações de doação a órgãos de prevenção ao suicídio foram organizadas. Como todo movimento de internet, haviam suas maçãs podres no meio, que se comportaram de maneira tóxica agredindo pessoas e forçando inclusive Diane Nelson a deletar sua conta no Twitter devido a ameaças. Entretanto, o movimento foi descrito majoritariamente como positivo.

Em Março de 2019, Snyder confirmou que a versão existia. O diretor contou que quando foi desligado do projeto, armazenou um corte bruto do filme em preto e branco, sem trilha sonora, em seu computador.

No final do mesmo ano, Toby Emmerich, presidente da Warner Bros., tomou conhecimento do tamanho da campanha e resolveu contactar Snyder. O diretor, bem como sua esposa Deborah, que o acompanha no trabalho a anos, se reuniram com a Warner e mostraram todas as suas ideias. Após inúmeras reuniões, a Warner se mostrou bastante impressionada e otimista com o projeto, dando luz verde ao lançamento.

Em 20 de Maio de 2020, o casal Snyder convidou os fãs para assistirem Man of Steel junto deles em uma sessão online do filme. Construiu-se uma imensa expectativa que o novo corte seria anunciado naquele dia. Ao final da exibição, Henry Cavill se juntou a Deborah, Zack e aos fãs para perguntas e respostas. Quando o assunto foi abordado, Snyder confirmou: sua versão da Liga da Justiça seria lançada em Maio de 2021 no HBO Max, um dos serviços de streaming da gigante estadunidense.

Não poderia ter sido diferente. Ao invés de teasers ou campanhas de marketing misteriosas, Snyder trouxe em primeira mão e compartilhou a notícia na intimidade de sua casa, sendo anfitrião de seus fãs, que assim como ele, nutrem um carinho enorme pelos personagens, atores, e é claro, por sua visão. O Universo DC estava em festa e a arte venceu.

Link do Anúncio de Snyder AQUI.

O imponente Darkseid agora EXISTE.

Quebrando a cara

Imediatamente após o anúncio, a internet surpreendentemente se dividiu em ofensas. De um lado, fãs ansiavam pela estreia do filme de impressionantes quatro horas de duração. Do outro, público e uma imensa parcela da crítica especializada alegavam com toda a certeza do mundo que o novo corte não passava de enganação.

Eis que com o surgimento dos primeiros reviews positivos, muitos donos da verdade admitiram ter quebrado a cara, enquanto outros simplesmente ignoravam o assunto. Como ousariam descer do altar de suas convicções, não é mesmo? O que mais me surpreende nisso tudo, entretanto, é como alguém pode ficar bravo por algo ser bom.

O que mais chamava a atenção nos relatos era que jornalistas, Youtubers, influenciadores e blogueiros diziam que agora entendiam a visão de Snyder. Entendimento e compreensão foram as palavras que embalaram o sucesso do SnyderCut, como um hino pela vitória da arte. Com cenas primordiais devolvidas, fotografia condizente e acima de tudo contexto, o Snydercut é uma pequena amostra do que o Universo DC poderia ter sido no cinema se não fosse tão repuxado e rasgado pela pressa de quem não compreende o cinema como arte, seja feito por Zack Snyder, Chris Columbus, Quentin Tarantino ou Ingmar Bergman.