Lá se vão cerca de 10 anos desde que os filmes de herói iniciaram a tomada definitiva de redes inteiras de cinema, tornando personagens antes considerados “Classe C”, como Homem de Ferro e Doutor Estranho, favoritos do fã médio de cultura pop. Ao passo que a Marvel Studios, agora propriedade da Disney e que nem tem tanto assim a ver com a Marvel Comics planejou tudo com cautela e deu um passo de cada vez, desenvolvendo um detalhado universo de cross-overs que sequer foram cogitados antes no cinema ou na TV/Streamings, a Warner se atropelou toda com a DC Comics.
Não dá para saber ao certo se o fracasso da DC no cinema se rendeu à pressa de “alcançar” a Marvel ou à estratégia de passar a imitá-la no meio do caminho, desconfigurando a visão mais sombria de Zack Snyder.
Independente da qualidade do Snyderverse, paira no ar desde então uma discussão sobre como filmes de herói devem ser. Divertidos, para todas as idades, ou sombrios e adultos? O cinema, assim como qualquer outro movimento artístico, passa por transformações ao longo de sua história, criando novas tendências e referências. Apesar da imensa maioria do público preferir a abordagem Marvel, é inegável que obras como Watchmen (HBO) e The Boys vão na contramão e garantem sucesso de público e crítica.
Sendo assim, como é que um filme deve ser?
Sempre defendi a ideia de que existe espaço para tudo, e aproveitando o Halloween, resolvi trazer dois found footages excelentes, mas que são completamente diferentes entre si, como uma espécie de exercício para este raciocínio. Convido vocês, fãs de cinema e não torcedores de empresa, para curtir estes dois filmaços.

REC (2007)
Dirigido pelos espanhóis Paco Plaza e Jaume Balagueró, que também assinam o roteiro ao lado de Luiso Berdejo, REC acompanha Ângela Vidal (Manuela Velasco), apresentadora de um programa de TV que documenta a vida de profissionais da madrugada. Naquele episódio em específico, ela e seu cinegrafista Pablo (Pablo Rosso) passam uma noite no Corpo de Bombeiros de Barcelona.
A premissa de um found footage é se passar por uma fita real que teria sido encontrada depois de algum desastre ou acidente, e é através das lentes de Pablo que acompanhamos toda a história.
No começo, Ângela e Pablo se divertem com os bombeiros, jogam basquete, mostram a rotina da equipe e nada de relevante acontece, até que um chamado de emergência muda o rumo de tudo: trata-se de um pedido de socorro em nome de uma senhora de idade avançada que aparentemente está presa em ser apartamento e não para de gritar.
Já no local da ocorrência, a equipe acaba se tornando parte de um pesadelo inimaginável, que envolve bombeiros, policiais e os demais moradores do prédio.
Vale muito a pena assistir REC sabendo o mínimo possível, pois assim, você aproveita o conceito do found footage com o máximo de imersão. Jumpscares, pessoas perdendo o controle e uma crescente sequência de eventos bizarros, assustadores e violentos são extremamente bem conduzidos pela dupla de diretores que consegue transmitir muito bem uma impressão de “fita real”, tanto na fotografia quanto nos cenários e condução dos atores. A escalada do desespero atinge níveis supremos e pode tirar o sono de muita gente.
REC é, com certeza, um dos melhores filmes do gênero, possuindo três sequências e um remake estadunidense dirigido por John Erick Dowdle (The Poughkeepsie Tapes) e estrelado por Jennifer Carpenter (O Exorcismo de Emily Rose).

Lake Mungo (2008)
O longa de Joel Anderson se despediu de REC na bifurcação das decisões artísticas, se tornando infinitamente mais sutil, buscando mesclar found footage com mockumentary, ou seja, um falso documentário, que nos apresenta à família Palmer depois que a jovem Alice falece em um acidente no lago Mungo em Ararat, na Austrália.
Além de parentes, amigos e conhecidos dão testemunhos sobre a garota em relatos repletos de tristeza. A riqueza de detalhes é grande, e o comportamento dos personagens, bastante verossímil. A tensão se inicia junto de menções a eventos estranhos na casa da família, que passaram a ocorrer após a morte de Alice e culminam na visita de um parapsicólogo. Lake Mungo se utiliza de trilhas sonoras e efeitos presentes em documentários reais para manter a atenção do expectador e conduzir uma narrativa que apesar do intenso tom de realidade e aparente trivialidade, consegue causar surpresas e trazer reviravoltas interessantes.
Sustos e imagens perturbadoras são praticamente inexistentes, fazendo de Lake Mungo um ótimo filme para se apresentar a quem é receoso com o gênero, pois se trata, acima de tudo, de uma história sobre o luto.
Já conhece algum dos dois filmes? Conta nos comentários! Se não, você já tem uma ótima pedida para este fim de semana de Halloween.