O segundo ano consecutivo assistindo a todos os filmes de todas as categorias do Oscar rendeu tantas boas recomendações quanto no ano passado; algumas óbvias, e outras nem tanto.

Enquanto grande parte das atenções se voltam ao principal prêmio da noite, muita coisa boa passa despercebida enquanto disputa categorias consideradas menores. A ideia desta lista é justamente jogar luz nestes títulos que merecem tanta atenção quanto os mais badalados.

Não que tudo listado aqui seja absolutamente épico, mas com certeza merece alguma atenção, e pode agradar diversos gostos diferentes.

Guerreiras do K-Pop

Concorre: Melhor Animação Longa Metragem, Melhor Canção Original (“Golden”)

Dirigido por Maggie Kang e Chris Appelhans, Guerreiras do K-Pop (K-Pop Demon Hunters no original, um título muito mais legal diga-se de passagem, mas compreensivelmente barrado em terras tupiniquins) acompanha o Huntrix, um trio de K-Pop extremamente popular integrado por Rumi, Mira, e Zoey, que arrasta multidões por onda anda.

A parte intrigante se deve ao detalhe de que as três moças são encarregadas da manutenção da Honmoon, uma barreira espiritual responsável por manter demônios afastados da Terra, protegendo as almas dos humanos.

A marca registrada Sony Pictures Animation, a mesma da saga do Aranhaverso, é bem visível, que embora com texturas mais “limpas”, não falha em proporcionar frames engraçados repletos de gestos e caretas que manifestam as diferentes personalidades de todas as personagens.

Vale ressaltar ainda o quanto o longa brinca com todos os maneirismos da música sul-coreana e com o comportamento de seus devotos, tendências do mercado da música e das redes sociais, que na vida real foram inundadas com os hits criados para o filme e cantados por idols reais do K-Pop, como o grupo Twice.

Guerreiras do K-Pop está disponível na Netflix.


Coração de Lutador

Concorre: Melhor Cabelo e Maquiagem

A primeira cinebiografia do MMA a ser lançada no grande cenário de Hollywood é protagonizada por Dwayne Johnson, o The Rock, que também assina como produtor esta história baseada em fatos que ele já manifestava vontade de contar há muito tempo.

O filme retrata a carreira de Mark Kerr entre os anos de 1997 a 2000, quando se tornou uma lenda absoluta do MMA, e traz excelente reconstituição de época do design de produção, fotografia e da excelente trilha sonora de Nala Sinephro. Para os fãs do esporte, ainda existem discussões acerca da segurança da prática e suas tentativas de proibição, bem como participações de lutadores famosos, como Ryan Bader interpretando — e bem — Mark Coleman, e Bas Rutten.

Um dos maiores atrativos com certeza é conhecer um The Rock que se despe da figura do brucutu carismático moderno dos filmes de ação e encarna toda as sutilezas de Kerr, a máquina de destruição que fora das arenas se mostrava publicamente como uma pessoa calma, de fala pausada, com simpatia e paciência inabaláveis.

Sua vida pessoal, que o afrontou com o vício em analgésicos e tensões conjugais com a namorada Dawn Staples (brilhantemente interpretada por Emily Blunt, que tanto reage às implicações de Kerr quanto pratica as suas próprias) é abordada de maneira menos alvoroçada, por vezes até parecendo pouco desenvolvida em relação ao núcleo esportivo da obra, mas também traz bons momentos quando se usa bem de certas miudezas que podem acabar se tornando grandes conflitos.

Coração de Lutador está disponível na Amazon Prime Video.


Se Eu Tivesse Pernas, Te Chutaria

Concorre: Melhor Atriz (Rose Byrne)

Rose Byrne interpreta Linda, que além de mãe de uma criança que necessita de cuidados intensos e constantes, é terapeuta. Vivendo uma vida que gira em torno de cuidar dos outros sem nunca ter tempo para si mesma e tampouco contar com uma rede de apoio, já que seu marido Charles (Christian Slater) trabalha viajando, ela circunda um desmoronamento iminente, se sentindo irracionalmente culpada pela situação em que se encontra.

O trabalho de Rose Byrne é digno de nota pelo modo como, junto de alegorias, transmite o estado mental da personagem, sempre posto em destaque pela câmera e tratado, de fato, como o principal ponto do longa escrito e dirigido por Mary Bronstein.

A noção da “mulher guerreira”, “mulher forte”, que sempre foi forçada na sociedade e na cultura popular quase como um dom é confrontada com um choque de realidade com causas e efeitos, que propõe gerar uma reflexão em torno de cargas de trabalho, sejam elas domésticas ou não, e o quanto mulheres — e especialmente mães, no recorte do filme —, são expostas a tais situações por parecer o “normal”.


Foi Apenas Um Acidente

Concorre: Melhor Filme Internacional (filmado no Irã, representa a França), Melhor Roteiro Original

Preso recentemente pela terceira vez por acusações de propaganda contra o regime iraniano, Jafar Panahi ganhou sua primeira Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2025 com seu novo filme.

Durante uma noite qualquer, um homem dirige em direção à sua casa junto da esposa e da filha pequena, quando de repente atropela um cachorro. Em busca de ajuda, encontra uma pequena oficina mecânica que o auxilia nos reparos do carro. Entretanto, Vahid (Vahid Mobasseri), um dos funcionários do local, acredita que aquele homem seria um oficial do governo que teria o torturado no passado.

Decidido a se vingar, Vahid persegue o homem no dia seguinte e o sequestra, mas sem ter certeza absoluta da identidade do capturado, resolve recorrer a antigos colegas de cárcere para sanar a dúvida, o que acaba ocasionando um turbilhão de incidentes tragicômicos que envolvem pessoas alheias à situação e até mesmo a polícia.

Baseado em experiências adquiridas na prisão e também através de relatos, Panahi cria tensão através de incertezas, memórias partidas pelo trauma e dilemas morais dos envolvidos. O próprio fato do filme ter sido rodado clandestinamente fica explícito, emanando uma sensação constante de ameaça, seja pelo próprio ambiente, pela clausura da van, ou pelas pessoas ao redor.

Destaque para o final, que apesar de muito simples, consegue condensar o enorme impacto do filme como um todo. 

Foi Apenas Um Acidente está disponível na MUBI.


A Pequena Amélie

Concorre: Melhor Animação

Amélie nasceu em uma família belga que mora no Japão no final da década de 1960. Durante os dois primeiros anos de sua vida, ela esteve em um estado vegetativo, o qual a fazia acreditar ser feito um deus aos olhos dos outros. No seu segundo aniversário, um terremoto a faz acordar, e a partir daí acompanhamos a pequena garota com opiniões bastante fortes e um olhar categórico sobre o comportamento dos familiares.

Dirigido por Maïlys Vallade e Liane-Cho Han, o filme apresenta um traço com fortes características européias e que pode ser um descanso para os olhos do 3D mainstream, e também um convite a observar a vida através dos olhos de uma criança que pode acabar elucidando mistérios da vida adulta com facilidade e nos lembrando de nós mesmos e de como encaramos coisas no passado.


A Meia-Irmã Feia

Concorre: Melhor Cabelo e Maquiagem

O completamente asqueroso longa de Emilie Blichfeldt é uma releitura da clássica história de Cinderela, mas acredite, você não está preparado.

Comparações com A Substância (2024, Dir. Coralie Fargeat) de fato são inevitáveis, pois ambas as obras orbitam como a sociedade trata vidas e corpos femininos, a diferença é que aqui, a diretora leva tudo muito, muito além.

Na Noruega do Século XIX, Rebekka (Ane Dahl Torp) se casa com um aristocrata por interesses monetários, entretanto, acaba descobrindo que o noivo também não possuía fortuna nenhuma e concluiu que a solução seria casar sua filha Elvira com o príncipe Julian.

Considerada feia e desajeitada, Elvira se submete a um extensivo tratamento que inclui aulas de dança e etiqueta, mas também agressivos e altamente questionáveis procedimentos estéticos. A crueza das cirurgias e o modo como a jovem sofre com tudo entram em dissonância direta com toda a beleza da reconstituição de época e dos belos cenários. Brilhantemente interpretada por Lea Myren, Elvira entra numa espiral bizarra de determinação que oscila entre sorrisos sinceros, forçados, e contorções de dor.

Definitivamente, NÃO assista após o jantar.

A Meia-Irmã Feia está disponível na MUBI.


Viva Verdi!

Concorre: Melhor Canção Original (Sweet Dreams of Joy)

Em Outubro de 1899, o renomado compositor italiano Giuseppe Verdi idealizou a Casa Verdi, onde músicos idosos sem condições financeiras ou de saúde para se manterem por conta, teriam moradia, alimento e cuidado. Entre 2015 e 2017, a cineasta Yvonne Russo quis contar a história dos moradores do local.

No documentário, conhecemos profissionais da música, de diferentes vertentes, como um baterista de jazz que tocou com Chet Baker, cantores, pianistas, violinistas, e muito mais. O filme conta inclusive com o relato de uma italiana que integrou a Orquestra Sinfônica Brasileira no Rio de Janeiro durante os anos 1950.

Muitos dos experientes moradores da casa são professores, o que cria uma observação interessante sobre as metodologias de ensino dos veteranos e a forma como encaram o aprendizado da música e a excelência. Presenciar grandes profissionais que, mesmo com a idade avançada, seguem como mestres do seu ofício e todo o apoio e reconhecimento que recebem é inspirador e reconfortante.


A Hora do Mal

Concorre: Melhor Atriz Coadjuvante (Amy Madigan)

A antipatia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas pelo terror ainda é uma realidade, embora os últimos anos tenham dado chance a representantes do gênero progressivamente.

Dirigido por Zach Cregger (Noites Brutais), o filme começa quando toda uma classe de crianças desaparece na mesma noite e horário, com exceção de apenas um deles, o garoto Alex (Cary Christopher). Enquanto alguns pais se veem imobilizados pela incerteza, outros investigam o sumiço e traçam planos para encontrar os filhos.

Histórias de habitantes da cidade começam a se entrelaçar enquanto grande parte da população parece mais preocupada em apontar culpados do que de fato buscar soluções. Com uma edição bastante bem conduzida, A Hora do Mal apresenta peças do quebra-cabeças aos poucos, indo e vindo no tempo, mostrando por vezes todo o caminho que as personagens trilharam para chegar em um momento específico.

Por mais que pareça estranho em um caso de indicação ao Oscar, quanto menos se souber previamente sobre a participação de Madigan, melhor.


A Voz de Hind Rajab

Concorre: Melhor Filme Internacional (Tunísia)

Kaouther Ben Hania conta a história real de Hind Rajab, uma garota palestina morta pelo exército de Israel na Faixa de Gaza em 2024.

Em 29 de Janeiro daquele ano, a central telefônica da Crescente Vermelha Palestina, organização humanitária filiada à Cruz Vermelha, recebe um telefonema em busca de ajuda. A pequena Rajab está dentro do carro junto dos cadáveres de todos os seus familiares e pede por socorro.

Em meio ao desespero de tentar salvar a garota, inicia-se um debate acerca do ato de trocar uma vida por outra e o quanto uma única morte afeta diversas pessoas ao redor, além de toda a burocracia envolvida em operações de resgate como um todo. A demora, um movimento em falso, e tudo pode ser posto a perder.

A tela escura do computador com a fina linha do espectro sonoro oscilando deixa espaço para que a imaginação construa a imagem do que a pequena vítima vive do outro lado enquanto estratégias de redes sociais são traçadas para atrair a atenção da imprensa e do grande público. Assim como os personagens em tela, não podemos ver nada, o que nos transporta completamente para dentro do filme e dá um panorama bastante acurado sobre o que foi enfrentado na vida real.


Sirāt

Concorre: Melhor Filme Internacional (Espanha), Melhor Som

Sim, é o filme do espanhol do sapato, e sim, o filme é muito bom.

Em Sirāt, acompanhamos Luis (Sergi Lopez), que, seguindo pistas, chegou a uma festa rave no Marrocos junto de seu filho Esteban (Bruno Núñez Arjona) em busca de Mar, sua filha desaparecida. Alguns dos frequentadores da festa sugerem que Mar pode estar em outra festa, um tanto longe dali, para onde acabam migrando depois que um batalhão do Exército surge pondo fim ao evento e ordenando que todos fossem embora.

Amplamente favorecido pela experiência da sala de cinema, Sirāt explora o som e a música como partes importantes da narrativa. A amplitude vazia do deserto, o calor, a escassez de recursos de viagem, a necessidade da negociação e a sensação da desgraça iminente fortalecem o conceito apresentado pela mensagem no início do longa. A proposta do diretor Óliver Laxe é a de um equilíbrio sofisticado entre a tensão terrena da jornada e o que ela representa espiritualmente, bem como as conexões interpessoais. Veterano de viagens ao Marrocos, ele reuniu suas experiências e indivíduos que conheceu ao longo da vida para contar essa história. 

O caráter de transe das cenas de dança, as provações atravessadas pelos personagens e o modo como reagem e se entregam ao risco criam leituras interessantes sobre jornadas espirituais difíceis de se comentar mais a fundo sem spoilers.


Kokuho

Concorre: Melhor Cabelo e Maquiagem

Talvez um dos meus favoritos entre todos, Kokuho (que se traduz para algo como “Tesouro Nacional”) se inicia em Nagasaki no final dos anos 1960, com o Japão ainda vivendo os resultados da guerra. Acompanhamos Kikuo Tachibana (Ryô Yoshizawa), um aspirante a onnagata, homens especializados a interpretar papéis femininos no tradicional teatro Kabuki, elemento que se entrelaça com a trama, sempre munido do contexto que o filme oferece tão bem.

O caminho de Tachibana é tortuoso devido ao envolvimento de sua família com a Yakuza, à tradicional demanda física e emocional na busca da perfeição e ao fato de que o onnagata veterano Hanjiro (Ken Watanabe) prefere Tachibana como aprendiz ao invés do filho Shunsuke, desafiando a importância da herança familiar na arte do Kabuki.

A trilha sonora possui momentos épicos e também de certa forma lúdicos, que inspiram a mística do kabuki. A montagem se divide entre as partes mais contemplativas e sensíveis do teatro, mas sabe ser urgente quando convém, assim como há esse conflito sensorial entre o ofício do teatro e fantasmas da vida criminosa. A maquiagem, somada às cores e à precisão da fotografia adicionam profundidade e diferentes dimensões às cenas teatrais, tornando-as quase em uma espécie de delírio.

Ao longo das três horas de filme, naturalmente surge uma rivalidade artística entre Tachibana e Shunsuke, que se expande entre admiração e ódio e gera discussões sobre o talento ser obtido de forma natural, quase como um dom, ou da dedicação, assunto frequentemente abordado em obras japonesas.

Kokuho acaba, por fim, falando muito sobre opostos.


The Girl Who Cried Pearls

Concorre: Melhor Curta em Animação

Em geral, curtas-metragem, e talvez mais especificamente os animados, parecem muitas vezes querer usar sua duração diminuta para deixar uma grande mensagem ou um ponto de reflexão, e uns conseguem mais do que outros.

Feito quase que inteiramente em stop motion e maquetes baseados em registros de atores reais, tanto cenários quanto personagens do curta de Maciek Szczerbowski e Chris Lavis possuem texturas riquíssimas, que contam histórias por si só. Há uma grande expressividade nos olhos, e a textura da pele das personagens reflete a dificuldade de tempos passados, de escassez e conflitos, onde às vezes, meramente a luz é um bem valioso.

O filme trabalha com o conceito de se desperdiçar a empatia em troca de dinheiro, mas também o quanto quem detém uma narrativa pode manipular o real valor de tudo que a circunda.

The Girl Who Cried Pearls está disponível no Youtube.


Papillon

Concorre: Melhor Curta em Animação

Lindamente pintado à mão, o curta dirigido por Florence Miailhe é baseado na história real do nadador profissional Alfred Nakache, nascido na Argélia, que competiu pela França nas Olimpíadas de 1936, antes de ser enviado a Auschwitz.

A fluidez da água retratada na obra simboliza a passagem do tempo, tanto passando pelas partes boas quanto pelas ruins, demonstrando todo o poder de resiliência de Nakache, que após perder a família no campo de concentração, competiria novamente em nível olímpico no ano de 1948.

O uso da cor e de efeitos de desfoque, iluminações e transições é tão tétrico quanto belo, e resume muito bem tudo o que Nakache enfrentou.

Papillon está disponível no Youtube.


All the Empty Rooms

Concorre: Melhor Documentário Curta Metragem

Nos Estados Unidos, a média de ataques por arma de fogo em escolas é de 132 por ano.

Ao perceber que o assunto se tornava cada vez mais banal, o apresentador Steve Hartman decidiu que devia fazer algo a respeito, e em All the Empty Rooms, ele mostra os quartos de vítimas, que muitas famílias mantêm intactas até hoje.

Lembranças dos pais e as histórias contadas transformam estatísticas em pessoas novamente, o que pode ser um bom ponto de partida para a desbanalização de um assunto tão crítico.

All the Empty Rooms é da Netflix.


A Friend of Dorothy

Concorre: Melhor Curta Metragem

Por um acaso, JJ (Alistair Nwachukwu), um garoto de 17 anos, acaba conhecendo Dorothy (Miriam Margolyes), uma idosa solitária. JJ sonha em ser ator, e Dorothy possui uma enorme coleção de peças de teatro, o que serve de ponto inicial para uma amizade improvável conforme ela o auxilia no ofício da atuação.

Com um toque de humor inglês (acentuado pela presença de Stephen Fry) e singelismo, o filme discorre sobre sonhos, o amor pela arte e visões de vida sob diferentes contextos e períodos enquanto brinca também com a linguagem do teatro.


The Singers

Concorre: Melhor Curta Metragem

Num bar decadente e escuro, diversos homens dividem o balcão enquanto compartilham suas situações de vida em um tom bastante defensivo. De repente, o proprietário do local desafia os clientes a cantar, oferecendo como prêmio US$100 e bebida grátis para quem melhor fazê-lo.

O que começa como piada acaba se transformando naqueles homens, antes sisudos e brutos, fazendo com que abram seus corações de forma sincera através das canções.