Mais um ano assistindo a todos os filmes indicados a todas as categorias do Oscar.

Sem dúvidas, muita coisa passa despercebida quando não concorre a Melhor Filme, e você pode ver mais sobre isso neste post.

Agora, falando sobre o prêmio principal da noite, o ranking abaixo é puramente pessoal. Eu não sou crítico de cinema, não possuo qualquer tipo de formação na área e muito menos sou um grande entendedor. So apenas um cara que gosta de assistir filmes e falar sobre eles.

Pode até ser, inclusive, que enquanto você lê isso, eu já tenha mudado de ideia sobre alguma coisa, mas vamos lá:

10. F1

Alegadamente o representante da categoria invisível “Melhor Filme Popular”, F1 traz Brad Pitt no papel de Sony Hayes, um automobilista estadunidense com passado amargo trazido de volta à categoria máxima do automobilismo por um misto de necessidade e força do destino. A premissa é clichê sim, e o longa de Joseph Kosinski é justamente o que parece: um Top Gun de carro tão descompromissado com a realidade quanto seu primo que voa.

A ausência de verossimilhança por si só evidentemente não é um problema, mas atravessar 2 horas e meia de afrontas escancaradas tanto ao regulamento da Fórmula 1 quanto às capacidades de pilotos, equipes, e a física (que não permite) não compensa a obviedade do roteiro. É muito claro que tudo se trata de mais uma investida da F1 enquanto produto no mercado norte-americano, que possui minúscula tradição no esporte (dando preferência à Indycar, NASCAR e IMSA, por exemplo), mas que tem tentado emplacar mais e mais etapas do campeonato em seu território, bem como inseri-lo no gosto do país, algo que tem se provado possível e acertado, já que com a modernização do marketing da categoria através das redes sociais e da série pseudo-documental Drive to Survive, triplicou o valor da Fórmula 1 entre 2017 e 2025.

Não que F1 seja ruim ou não tenha qualidades, pois as corridas são tão imponentes na tela quanto são na vida real, e do mesmo jeito que o time de Kosinski conseguiu nos botar dentro de aviões de caça, também nos deu carona em um Fórmula 1, com direito a tudo o que o barulhento espetáculo tem a oferecer. Também é notório que, em pleno 2025, um filme que não receba o selo Marvel ou se trate de uma sequência leve tanta gente à sala de cinema.

Sem dúvidas, F1 diverte e pode até ser o pontapé inicial para um novo fã do esporte, mas é difícil engolir este filme na principal lista da premiação no lugar de obras como A Única Saída, Foi Apenas Um Acidente, A Hora do Mal, A Meia-Irmã Feia, Kokuho, Sirat, ou até mesmo o Superman de James Gunn, caso se faça de fato necessária a presença de um “filme popular”, seja lá o que isso for.

Um filme realmente bom sobre Fórmula 1? Rush.


9. Frankenstein

Embora saudosista do Guillermo del Toro do Velho Testamento, tentei me livrar de expectativas (dos dois lados) para assistir ao filme que o diretor mexicano classificou como seu Monte Everest pessoal e investiu mais de 30 anos de trabalho desde os esboços iniciais.

É difícil conjecturar o quanto del Toro abriu mão de sua visão original devido à frustrações com projetos cancelados e até mesmo tentativas freadas de realizar a adaptação da história de Mary Shelley, mas desde A Forma na Água (2017) que o rendeu Oscars de Melhor Filme e Melhor Diretor, ele parece estar se dobrando cada vez mais às regras do mercado mainstream, que atualmente reside consideravelmente nas mãos dos streaming, e em especial da Netflix.

Há grande cuidado com a parte visual, mas há partes onde o CGI frustra pela noção de como del Toro poderia ter feito aquilo com efeitos práticos. Há momentos em que o peso dos diálogos parece não ser acompanhado pelo o que vemos na tela. Uma maior exploração da fisicalidade do monstro também poderia ser mais apreciada em closes ou maiores tempos para reação.

Não é um filme ruim, mas quem conhece a obra do diretor desde o início, pode pensar que falta algo. É plausível responsabilizar as expectativas, mas não deixa de ser notório o desvio de caminho do realizador na última década.

Jacob Elordi justifica a indicação a Melhor Ator Coadjuvante como o monstro, e entrega uma atuação que poderia ser mais valorizada e explorada.


8. Marty Supreme

O incansável Timothée Chalamet é Marty Mauser, um jovem vendedor de sapatos que vive em função do sonho de se tornar campeão mundial de tênis de mesa durante os anos 1950. Inescrupuloso e detentor de um raciocínio rápido e constantemente autodestrutivo, Marty parece não se importar que o que diz ou faz pode e vai se voltar contra ele no segundo seguinte.

Quando indagado sobre “dom”, um artista vai argumentar que na verdade, tudo se trata de aprendizado, prática, investimento de tempo, dinheiro, e vida; mas concluí recentemente que ser artista é ainda mais que isso: é uma maldição, e pragas parecidas podem afetar todos que não possuem família com nome azul na Wikipedia, não nadam em dinheiro ou não escolheram um dos três elementos da trinca mágica das profissões. O fato de Marty ser um mesatenista, esporte visto como menor pode dividir as opiniões do espectador de acordo com suas visões de mundo e escolha de vida, o que acaba enriquecendo as discussões propostas pelo filme.

Longe de um modelo de ser humano, Marty nos mostra através de sua jornada que a maldição da perseguição do sonho não carece de motivos explicáveis, mas que pode nos tornar impulsivos ou inconsequentes, nos colocando em diversos tipos de perigo.

As cenas que retratam as partidas de Marty centralizam a quadra e a mesa sob os holofotes, apagando tudo em volta, ganhando um tom quase divino, que representa como Marty enxerga o esporte e as oportunidades que ele pode lhe oferecer, tudo intensificado pela trilha sonora de Daniel Lopatin. A edição é caótica num ponto que parece se alinhar com a concepção de uma vida “rápida” na década de 1950.

Chalamet, tido como favorito na categoria de Melhor Ator, mais uma vez parece ter tido cuidado com todas as arestas de sua atuação, continuando sua busca por personagens distintos para interpretar, e é claro, por prêmios e reconhecimento.


7. Uma Batalha Após a Outra

O diretor Paul Thomas Anderson (Boogie Nights, Embriagado de Amor) desfila novamente seu estilo caótico no seu filme mais caro até então.

Leonardo DiCaprio é Bob Ferguson, membro praticamente aposentado de um grupo revolucionário chamado French 75. Diferentes épocas, personagens e núcleos se conectam ao longo das quase 3 horas de duração, algo costumeiramente dominado pelo diretor Paul Thomas Anderson.

Enquanto se propõe a mostrar duas interpretações do mesmo problema — revolucionários e ultraconservadores lidando com a questão da imigração nos Estados Unidos —, o longa se mostrou gradualmente divisivo, gerando discordâncias até mesmo entre pessoas pertencentes à ideologias similares, pois há quem argumente que existem caracterizações exageradas. Entretanto, é válida a observação daqueles que temos como aliados, e o entendimento de que nem todo retrato exagerado se traduz em desdém pela causa ou representa a totalidade da de um assunto tratado. O personagem de DiCaprio, por exemplo, é trapalhão, mas está disposto a ir até às últimas consequências pela família e pelos colegas, assim como o Sensei (brilhantemente vivido por Benicio del Toro), que à primeira vista parece um lunático, mas é um dos cabeças do grupo mais bem organizado do filme todo. Indivíduos desastrados podem ser heróis, a virtude não vem apenas de quem é capa de revista.

A grandiosidade dos ambientes e das cenas de ação é valorizada pelo uso do VistaVision, método de gravação onde a película corre de lado na câmera/projetor, proporcionando uma maior área de captura de imagem sem distorções nas extremidades.


6. Hamnet

Chloé Zhao capitaneia a adaptação do livro Hamnet, lançado por Maggie O’Farrell em 2020, que se propõe a mostrar um recorte da vida de William Shakespeare (interpretado pelo brilhante Paul Mescal, completamente esnobado na categoria de Melhor Ator Coadjuvante) que compreende de seu casamento com Agnes (interpretada por Jessie Buckley, que já tem 9 dedos na estatueta a essa altura) até a concepção da tragédia de Hamlet.

É seguro dizer que Hamnet é uma crescente, iniciando no momento em que o casal se descobre, passando por altos e baixos que vêm tanto de fora para dentro, quanto de dentro para fora.

Agnes, mãe de três filhos, com fortes ligações com a terra e a natureza, sente distanciamento por parte do marido após a tragédia que acomete o filho Hamnet, de 11 anos, e em resposta, deriva entre a agressividade e a apatia, e um longo período de espera se faz necessário antes que ela compreenda como Shakespeare processou a perda do filho.

A cena que apresenta a peça de teatro é com toda a certeza uma das mais lindas e potentes do ano, onde a complexidade da linguagem dos textos do Bardo se somam ao turbilhão de emoções de todos que a presenciam.


5. Sonhos de Trem

Embora pouco comentada, a quinta chance brasileira de Oscar vem com Sonhos de Trem, para Melhor Fotografia, com o inspirador trabalho do brasileiro Adolpho Veloso, que vale dizer, já faturou o Critics Choice Award e o Spirit Award na categoria, recebendo o prêmio das mãos de Wagner Moura.

Joel Edgerton interpreta Robert, um lenhador que trabalha por temporadas, de acordo com a demanda de madeira que vem majoritariamente da Primeira Guerra Mundial, e cansado de permanecer afastado de sua esposa Gladys (Felicity Jones) e da filha pequena, idealiza um plano para que não precise mais se ausentar tanto.

Lento e por muitas vezes silencioso e escuro, Sonhos de Trem faz com que nos identifiquemos com os temores e questionamentos de Robert, mas também nos sintamos seu confidente, às vezes sentados junto dele em frente à fogueira, às vezes na varanda da cabana, ou até mesmo cruzando as densas matas do noroeste dos Estados Unidos.

As respostas que tentamos dar a nós mesmos diante de questionamentos tão grandes quanto o universo muitas vezes são insatisfatórias e servem apenas para originar mais perguntas que se tornam medo, ansiedade, solidão, e tantas outras sensações indescritíveis; e acompanhar Robert durante praticamente toda a sua vida pode nos mostrar caminhos para  compreender melhor como temor e dúvida se entrelaçam, e que a ajuda de outras pessoas pode, muitas vezes, nos fazer a entender como somos parte de tudo.

Para a fotografia, Veloso trabalhou com aspecto 3:2, algo que, junto dos enquadramentos, classificou como uma espiada em fotos antigas de alguém, que você observa e tenta montar um quebra-cabeças de quem teria sido aquela pessoa através das imagens. A iluminação é natural e tanto o sol, em suas diferentes intensidades, quanto a chama das velas, são aliados poderosos na construção de um visual memorável.

Além da ausência de Paul Mescal na categoria de Melhor Ator, com certeza podemos salientar a injustiça à Joel Edgerton também, que emana com elegância a inquietude de um homem simples de uma época com diferentes noções de masculinidade diante de sentimentos e dúvidas desafiadoras e atemporais.


4. Bugonia

O terceiro produto da parceria de Yorgos Lanthimos com Emma Stone em três anos acompanha o teórico da conspiração Teddy (Jesse Plemons) e seu primo Don (Aidan Delbis), a quem coagiu a participar de uma caçada a uma suposta alienígena, a badalada Michelle Fuller, CEO de uma empresa farmacêutica, que rendeu mais uma indicação de Melhor Atriz à Emma Stone.

Desde a introdução, a trilha sonora, as falas de Plemons e os enquadramentos escolhidos emitem um tom de conspiração, de como se observássemos e tentássemos interpretar peças da tal verdade oculta que nos será apresentada. No decorrer dos “interrogatórios”, os closes nos rostos iluminados em meio à escuridão do cativeiro transmitem sensações de fitas secretas exibidas naqueles programas jornalísticos duvidosos da madrugada.

A personagem de Emma Stone é combativa e tenta raciocinar rapidamente para cavar oportunidades de escapar do cativeiro ou ao menos pedir ajuda.

Os múltiplos lançamentos recentes da dupla Lanthimos-Stone talvez faça com que Bugonia perca parte de seu valor de choque ou surpresa, já que muitas das marcas registradas do diretor se tornam previsíveis, o que pode ser tido como um dos pontos baixos do longa.

Embora não seja tão simples assim de se adivinhar o que vai acontecer, a sensação de que algo está por vir é constante e estranha, que pode ser uma sensação bastante apreciável para os fãs de algo mais retorcido, talvez retorcido até demais, quando começamos a pensar o quanto as teorias apresentadas no filme são cada vez mais tomadas como realidade.


3. Pecadores

Ryan Coogler (Creed, Pantera Negra) e Michael B. Jordan repetem a antiga e excelente parceria para contar a história dos gêmeos Smoke e Stack em seu retorno ao Mississipi da década de 1930 e sua intenção de abrir um clube com música ao vivo. Eles só não esperavam que, ao recrutar antigos conhecidos e prestadores de serviço para a empreitada, fossem confrontados pelo mal e por forças sobrenaturais.

Na última década e meia, presenciamos discussões sobre o tal “pós-terror”, um subgênero supostamente evoluído e que trataria de assuntos tidos como nobres ou verdadeiramente importantes, de certa forma validando o cinema de terror como algo relevante, necessário, ou merecedor de atenção. Pecadores podre facilmente ser posto nesse contexto junto de obras como O Babadook (2014) ou Hereditário (2018); entretanto, questões sociais, familiares ou antropológicas sempre foram abordadas no gênero. Sangue de Pantera, por exemplo, já discutia sexualidade feminina, machismo e repressão em 1942. Tido como o maior título do terror no cinema até hoje, O Exorcista, de 1973, aborda a eterna rusga entre ciência e religião e seu impacto na vida das pessoas por diversas óticas.

Em Pecadores, Coogler discute racismo, apropriação cultural e o poder da união e da arte enquanto formas de consciência e resistência, tudo isso encarado por pontos de vista distintos pelos dois irmãos interpretados por Jordan, que tendem a reagir cada um à sua maneira diante dos acontecimentos.

Recordista histórico de indicações ao Oscar (totalizando 16), o longa apresenta um equilíbrio interessante em todos os seus elementos na construção da narrativa. A comentada sequência musical é um show à parte e não seria exagero dizer que vale a pena assistir ao filme só por ela. Ludwig Goransson, responsável pela trilha sonora, segue justificando porque é um dos nomes da indústria que mais ganhou relevância nos últimos anos, tendo aqui seu trabalho como parte essencial da história. Munido de equipamento da época, como um violão Dobro e slide, ele criou a base da trilha de maneira introspectiva, transicionando para outros gêneros e engrandecendo-a conforme a intensidade das cenas também avançava.

Autumn Durald Arkapaw, diretora de fotografia, ressaltou em entrevistas a importância dos formatos IMAX e Ultra Panavision 65mm na captura da vastidão dos ambientes abertos e das diferentes intensidades da luz do sol. 


2. O Agente Secreto

A montagem inicial, com fotografias e música, me fez ter uma primeira impressão equivocada e um tanto insuportável sobre o que seria o novo filme de Kléber Mendonça Filho (Bacurau, Retratos Fantasmas). Entretanto, enquanto Marcelo (Wagner Moura) tentava entender como um cadáver era visto com tanta naturalidade pelo funcionário do posto de gasolina, minhas impressões só melhoraram.

Em 1977, Marcelo se dirige a Recife em busca de um refúgio. Seu disfarce é tão cuidadoso que até mesmo o espectador precisa reunir as pistas pelo caminho para poder entender o que aconteceu, e quem ele quer evitar.

Além de uma brilhante reconstituição de época e um elenco acertado ao extremo, o cinema é parte da narrativa tanto enquanto espaço físico quanto conceito. O medo e a desconfiança característicos do período por vezes são até mesmo tratados com humor, mas sempre submersos num mistério que deve ser desvendado com cuidado.

Pela natureza da vida na surdina, identidade é um dos principais pontos de discussão, bem como a memória, ou a falta dela. Muitos dos diálogos são lentos, e existem cenas onde simples trocas de olhares causam tanta euforia quanto tiroteios.

Além de tudo que já foi citado acima, a montagem é sofisticada, e tudo, o tempo todo pode ser incrementado com elementos que passam rapidamente pela tela. É um filme com bastante conteúdo em todos os termos, que definitivamente merece ser assistido diversas vezes.


1. Valor Sentimental 

Joachim Trier (Pior Pessoa do Mundo) convoca novamente Renate Reinsve, desta vez para o papel de Nora, atriz e filha do conceituado cineasta norueguês Gustav Borg (Stellan Skarsgård), que junto de Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), irmã de Nora, compõem uma relação conturbada e distante.

Após anos de afastamento, Gustav tenta uma reaproximação depois que Sissel — sua ex-esposa e mãe das mulheres — morre, e oferece à Nora o papel principal em seu novo projeto.

Conflitos como o direito de posse da propriedade onde a família cresceu, hábitos autodestrutivos, segredos, memórias, a carreira de Gustav e a saúde mental de todos orbitam o trio, que falha constantemente em manter uma conversa saudável, mas exprime as marcas do passado através do ofício da arte — principalmente no caso de Gustav, que embora pouco alegue isso em palavras de um jeito realmente sóbrio, busca realizar o filme mais pessoal de sua carreira, tecendo parábolas a respeito de sua mãe e filha.

Um detalhado design de produção passeia por diferentes épocas, aliando-se da composição introspectiva que constantemente isola os personagens no quadro e fotografia que usa o contraste entre luz e sombra para nos contar mais sobre as barreiras invisíveis entre os Borg através de diferentes momentos do antigo lar na história , e consequentemente da vida daquelas pessoas. Apesar da seriedade dos temas abordados, a produção consegue ser leve em diversos momentos.

Há quem diga que é se trata da melhor atuação da carreira de Skarsgård. O elenco conta ainda com Elle Fanning como Rachel Kemp, uma jovem e popular atriz que, fã de Borg, deseja trabalhar com o diretor.

Na mídia, tem-se feito comentários sobre a similaridade do êxito de Valor Sentimental e Anora no âmbito comercial, por conseguir mesclar autoralidade com sucesso mercadológico.

A curadoria de canções do longa por si só, também é uma obra de arte à parte.