Em 2007, Zodíaco me chamou, ali, entre todos os lançamentos em DVD na prateleira da locadora. A história de um serial killer nunca identificado que deixou enigmas indecifrados (até então) foi minha escolha da sexta-feira.

Ambientado entre 1968 e 1983 na cidade de São Francisco, o longa dirigido pelo excelente David Fincher acompanha o cartunista Robert Graysmith (Jake Gyllenhaal), o jornalista Paul Avery (Robert Downey Jr.), e o investigador Dave Toschi (Mark Ruffalo); todos pessoas reais, na caçada ao nunca capturado Zodiac Killer, que confirmadamente vitimou cinco pessoas e alegou ser o responsável por dezenas de assassinatos entre 1969 e 1974.

As 2h40 de filme passeiam pela década e meia com maestria numa ambientação de época que enche os olhos e um roteiro que consegue transmitir a exaustão dos envolvidos sem ficar cansativo para o espectador.

Totalmente impressionado com Zodíaco, fui pesquisar outros trabalhos de Fincher e naturalmente caí em Se7en, de 1995, estrelado por Brad Pitt e Morgan Freeman, seguramente um de meus filmes favoritos de todos os tempos.

Por coincidência, eu havia lido O Cavaleiro das Trevas pouco tempo antes, influenciado por Batman Begins; e já no hype da aparição do Coringa no segundo filme de Christopher Nolan, busquei outras HQ’s famosas do Morcego e caí em O Longo Dia Das Bruxas. Foi aí que em mais uma noite em claro concentrado na tentativa falha de dormir, eu pensei:

E se alguém fizesse um filme igual Se7en, mas com o Batman?!


Tinha certeza absoluta que isso nunca rolaria, e inúmeras são as vezes na vida em que estou errado, mas essa contava com um dos meus melhores equívocos. Quinze anos depois e um pouco menos burro, cá estou eu obcecado por “The Batman”.

Noir

A narração, a chuva, os enquadramentos claustrofóbicos, os desfoques, tudo constrói um clima noir que dialoga fluentemente com a ambiencia depressiva desta nova versão de Gotham City. A música de Michael Giacchino tece o tom das cenas de maneira extremamente elegante, se entrelaçando com o que é mostrado na tela pelo diretor de fotografia Greig Fraser. O tema principal por vezes é reflexivo e distante, e se integra ao cenário, mas também é um estrondoso martelo sonoro de piano e metais que te faz encolher na cadeira. O diretor Matt Reeves, que escreveu o roteiro ao lado de Peter Craig faz uso de uma rica linguagem cinematográfica para contar detalhes que não necessitam ser ditos.


Robert Pattinson quase não aparece sem a máscara, deixando claro que é um filme sobre o Batman, e não sobre Bruce Wayne. A perícia do ator inglês que já abandonou a estigma de vampiro brilhante que o nerdola tanto ama odiar há mais de uma década é evidente e mostra um vigilante inexperiente e egoísta em ascenção, que ainda não entendeu o que é ser um herói. Até mesmo quem ele tenta salvar, o teme.

O Charada de Paul Dano assusta. Nos trejeitos, no traje, no quão verossímil ele é. Peça essencial no desenvolvimento do personagem principal, ele não é o antônimo do Batman, e sim uma versão oprimida, largada e açoitada pelas desigualdades criadas por gente como a brilhantemente imperfeita família Wayne. Com uma considerável fatia do povo ao seu lado, O Charada nos lembra que o ódio que serpenteou para fora dos bueiros da internet nos últimos anos é mais real do que nunca. O restante do elenco também entrega um trabalho fenomenal: a corajosa Mulher-Gato de Zoë Kravitz oferece um terceiro ponto de vista sobre a vida em Gotham City, mostrando como o jogo sujo de políticos e mafiosos é, no fim, extremamente semelhante. O Gordon de Jeffrey Wright é imponente, seguro, e sabe o que tem que ser feito, mostrando um verdadeiro líder em momentos de crise; o Pinguim de Colin Farrell dispensa apresentações, assim como o Carmine Falcone de John Turturro.


O confronto entre o brilhante detetive e o serial-killer acontece majoritariamente no campo das ideias, das influencias indiretas que movimentam peças de um complexo jogo que envolve políticos, polícia e máfia.

Herói

Tentando prosseguir o mais livre de spoilers possível, é seguro dizer que The Batman é um filme onde o Batman aprende, a duras penas, o que é ser um herói e como agir como tal, enquanto entende como cada elemento da sociedade atua sobre o outro. Cineasta hábil, Matt Reeves usa de pura e sofisticada linguagem cinematográfica para contar a história.

Podendo ser considerado lento e até longo demais para alguns, sobretudo numa época onde “super-herói” se torna cada vez mais um gênero enlatado e carente de novidades, “The Batman” é um grande filme de investigação, trazendo de volta ao mainstream elementos de grandes obras como Falcão Maltês, Chinatown e Pacto de Sangue.

Me diz aí, gosta do Batman? Curtiu o último filme?